2. ENTREVISTA 11.9.13

ANTONIO FAGUNDES - "TEMOS CENSURA QUE NO TIVEMOS NEM NA DITADURA"

O ator diz que a produo cultural do Pas sofre censura econmica exercida pelo governo e pelos gerentes de marketing das empresas que determinam o que vai ou no ser levado ao pblico
por Wilson Aquino 

ELEIES - Eu esperava que o PT fosse um partido ntegro e no que abrisse outros caminhos de roubo

Na portaria do Projac, estdios de gravao da Rede Globo, no Rio de Janeiro, o funcionrio alerta: Antonio Fagundes? Olha, ele  muito pontual. Nos bastidores, a fama do ator  outra, talvez porque cumprir horrios seja algo pouco comum no Pas. Fagundes, porm, comeou a entrevista na hora marcada e, simptico, discorreu sobre vrios assuntos, como eleies, poltica cultural e preconceito. Aos 64 anos, esse carioca que se mudou para So Paulo aos 8 anos at hoje se divide entre as duas cidades. No Rio, encarna o mdico machista Csar Khoury, da novela Amor  Vida. Fagundes deu uma virada na trama e seu personagem, que deveria morrer no meio, ser mantido at o captulo final. Em So Paulo, dedica-se ao teatro nos fins de semana.

"Poltica no Brasil  uma zona. O Serra est querendo ir para outro partido;  um absurdo. Ele mudou de ideologia?

Na era da comunicao, estamos vivendo num mundo surdo. Nem voz se ouve. No tenho computador. Sou um analfabyte. E isso  uma opo ideolgica"

Isto - O sr. sempre defendeu a necessidade de as pessoas terem participao poltica. J tem candidato para 2014?

Antonio Fagundes - Sempre dei meu apoio para a turma do PT. Enquanto estava no Legislativo, tudo bem. Quando botaram a mo na grana, comeou a acontecer, infelizmente, o que acontece com todos os outros partidos.  uma pena que o PT tenha entrado nisso, era realmente uma possibilidade de mudar a cara do Pas. Eu esperava um partido ntegro, que tivesse um sentido de tica muito forte e que impedisse as pessoas de roubar, e no que abrisse outros caminhos de roubo. Ento agora vou ter que rever. A perspectiva no  muito boa, mas sei que democracia  entre os males o menor. Vamos ver quem  que pode fazer menos mal ao Pas. 

Isto - Aposta em novos partidos?

Antonio Fagundes - Voc tem 30 e tantos partidos e no sabe o que eles pensam, de onde vieram. Sabe que so sustentados pela venda de votos e do espao a que tm direito na televiso. O (Jos) Serra (PSDB) j est querendo ir para outro partido;  um absurdo. Se o cara est saindo de um partido e indo para outro, ele mudou de ideologia? Porque o certo  cada partido ter sua ideologia, uma forma de resolver os problemas que a sociedade apresenta. Mas poltica no Brasil  uma zona, tem alguns partidos e alguns polticos que, pelo menos, deveriam ter vergonha na cara. Serra, me desculpe, mas fique quietinho no seu partido... 

Isto - As recentes manifestaes populares podem mudar nossos polticos?

Antonio Fagundes - Os governantes fizeram uma coisinha aqui, outra ali, voltaram atrs em uma leizinha e acabou? No, no. O imposto eu pago e tem um cidado l no Congresso que deve cuidar das coisas em meu nome. Isso  representatividade. Se por acaso esse cidado vai l e rouba o meu dinheiro, tenho que tirar esse cara de l e botar outro. No sou obrigado a aceitar o (deputado federal Paulo) Maluf, por exemplo, como meu representante.

Isto - Mas eles foram eleitos direta e democraticamente.

Antonio Fagundes - No sei se ns votamos mal ou se o sistema eleitoral  muito malfeito e nos encaminha para isso. Ver o (senador Jos) Sarney no poder h tantos anos  um contrassenso. Ele mudou o ttulo para o Amap para se eleger.  uma vergonha ele ser eleito pelo Amap. 

Isto - A pea que o sr. vai estrear fala de uma famlia disfuncional. Que paralelos v com o mundo de hoje?

Antonio Fagundes - A pea se chama Tribos e fala um pouco sobre preconceito, de como o mundo est surdo. Essa pea  de uma famlia disfuncional, meio louca, de pais intelectuais que tm um filho surdo, mas decide que ele no deve ser considerado surdo. At que ele conhece uma menina que sabe a lngua dos sinais e comeam a aparecer os preconceitos.  muito interessante porque estamos vivendo num mundo surdo mesmo. 

Isto - Mas essa no  a era da comunicao?

Antonio Fagundes - . Mas na era da comunicao as pessoas esto se excluindo porque elas esto em tribos, separadas e surdas. Porque nem a voz mais voc ouve. Eu no tenho computador. Eu sou um analfabyte. E isso  uma opo ideolgica. Lembro sempre dos criadores de cavalo quando o automvel foi inventado. Para eles foi o fim do mundo, mas era o futuro. O cavalo que se dane. Ento,  inevitvel que daqui a alguns anos no tenha mais livro fsico. Mas espero que demore muito porque eu gosto do livro de papel.

Isto - Tem pgina no Facebook?

Antonio Fagundes - No. As pessoas falam: Como  que voc consegue? A internet  o maior exemplo de exibicionismo da humanidade. S que vai chegar uma hora em que as pessoas vo se sentir angustiadas, porque precisam da privacidade. A gente jogou a privacidade no lixo. Em troca do qu? 

Isto - O que acha das leis de incentivo  cultura, como a Lei Rouanet? 

Antonio Fagundes - Estamos vivendo um momento delicado com a Lei Rouanet. Muita gente vai cair em cima de mim por causa disso, mas essas leis de incentivo so improdutivas. Uma lei cultural deve financiar o estmulo  cultura, o aumento de pessoas com acesso a isso. E no  o que est acontecendo, porque o governo deixou de decidir quem merece ou quem no merece, quem estimula e quem no estimula. Agora, so os gerentes de marketing que determinam a poltica cultural do Pas, mesmo sem entender nada de teatro. Quando o governo passou isso para as mos de gerentes de marketing, tirou o seu da reta. E nesse processo temos duas censuras, que no tivemos nem na poca da ditadura

Isto - Que censuras?

Antonio Fagundes - Censuras econmicas: uma delas  do governo dizendo se voc pode ou no captar, porque eles recebem 20 mil projetos por ano e aprovam dois mil. Mas no sabemos o critrio de aprovao. A outra censura  a do gerente de marketing, porque se ele disser que no, voc no monta seu espetculo. Ento voc v espetculos que seriam importantes de serem montados, mas no so, e espetculos que no tm tanto valor sendo montados.

Isto - No se consegue montar espetculo sem patrocnio?

Antonio Fagundes - Atualmente, somente com patrocnio. Ningum mais consegue se manter apenas com a bilheteria. Os custos subiram tanto que voc pode cobrar o ingresso que quiser que no se mantm. Tanto que os espetculos no ficam mais de dois meses em cartaz, a no ser aqueles que tm um aporte contnuo de patrocnio. Nos meus 47 anos de profisso, tive trs patrocnios. Sempre acreditei que enquanto tivesse pblico continuaria em cartaz. Hoje em dia no interessa mais isso, voc pode lotar que vai ter de sair dois meses depois. E, nesse crculo perverso, os teatros no alugam o espao mais do que dois meses. Eu diria que, assim como o livro, o teatro est acabando. 

Isto - O cinema est na mesma situao?

Antonio Fagundes - Hoje em dia, nenhum filme brasileiro se paga, nem o que teve dez milhes de espectadores. E 90% dos filmes brasileiros tm menos de 20 mil espectadores. E menos de 20 mil no so 19 mil, so 500, 600, 1,2 mil pessoas. A gente ouve falar que determinado filme teve mais de um milho de espectadores. Mas so apenas uns quatro que conseguem e ns fazemos 100 longas por ano. Na ltima pesquisa que vi, tinha uma fila de 200 filmes na prateleira porque no conseguiam sala para exibio, embora o Brasil tenha 2,5 mil salas. Competimos com cinema americano, francs, alemo, etc.

Isto - Para muitos, Csar, seu personagem em Amor  Vida (Csar Khoury),  um vilo. Para outros, ele  um tpico cidado brasileiro. O que o sr. acha?

Antonio Fagundes - O Csar  um cara eticamente inabalvel, tem as convices dele no hospital, e  ntegro. Mas tem amante,  homofbico convicto e j fez umas cagadas no passado. Isso faz voc pensar na complexidade do ser humano. O Walcyr (Carrasco, autor da novela) tem essa caracterstica que acho tima: foge do maniquesmo, da caricatura do bom e do mau. Isso d profundidade, humanidade para os personagens e confunde o pblico, de certa forma. Mas ter uma surpresinha  sempre bom.

Isto - Muita gente se identifica com o Csar?

Antonio Fagundes - Isso  surpreendente. Uma pesquisa mostrou que 50% das pessoas se identificam com ele. Deve ter homossexual homofbico tambm, o que aparentemente pode ser um contrassenso, mas no . Tem pessoas que so preconceituosas com a prpria classe, a prpria tribo. Mas essa reao do pblico mostra que o tema merece discusso mesmo. A gente sempre ouve falar de homofobia e imagina aquelas cenas horrveis, dos caras batendo em homossexual. Mas a homofobia pode ser mais violenta ainda sem levantar a mo. Acho que o Walcyr foi muito feliz e muito corajoso nessa abordagem. 

Isto - Qual  a sua opinio sobre homossexualidade?

Antonio Fagundes - Acho que a opo sexual  como ser vegetariano. Foro ntimo. Esse negcio de mandar as pessoas sarem do armrio  questionvel. Por que a pessoa tem que sair do armrio? No precisa! Ela faz o que quiser na vida ntima, no  obrigada a abrir sua intimidade. A cobrana acaba sendo outro tipo de preconceito. Agora, aqueles que saram tm que ser respeitados. A verdadeira ausncia de preconceito  respeitar tudo.

